Bráulio Bessa – Poesia com rapadura

Ele costuma dizer que sua poesia é um abraço, só não consegue precisar quantas pessoas cabem nele,...

afinal, seja toda sexta-feira se encontrando com o Brasil no programa da Fátima Bernardes ou em seus vídeos declamando a mais nordestina das poesias, Bráulio Bessa  estica os braços até não poder mais para “abarcar” quanto mais gente puder. Considerado o Embaixador do Nordeste pelo país afora, o cearense de Alto Santo, interior do estado, se tornou o maior entusiasta da nossa cultura e fez seu cordel contemporâneo ser compreendido por uma nação através dos versos e do sotaque inconfundível que o transformou no representante “eleito” do povo nordestino. 

FOTO: BRUNO MOURA

Você cursou Análise de Sistemas, mas, quase terminando a faculdade, trocou os números pelas letras. Foi difícil deixar algo “certo” pela poesia? 

Sou de família pobre. Minha mãe acordava às 4h da manhã, sentava a bunda na cadeira para costurar e sustentar três meninos. As pessoas diziam: “rapaz, deixe dessa frescura de poesia, que isso aí não dá dinheiro, não. Você tem que ganhar dinheiro para ajudar sua mãe. Vai passar é fome com essa história de poesia”. E, naquele momento, muito imaturo, tendo realmente que ajudar minha mãe e sem ganhar dinheiro algum com poesia, fui cursar Análise de Sistemas. Quando estava no último semestre, prestes a me formar, o professor passou um documentário sobre a vida de Steve Jobs, e vi que ele não se formou e, mesmo assim, ficou rico. Pensei: a hora é essa! (risos) Larguei a faculdade e fui viver de poesia. Como tinha contato com a tecnologia por ter feito Análise, resolvi unir o que havia aprendido à paixão pela cultura nordestina. Usei a internet, que é, de forma contraditória, considerada uma vilã desse processo de esquecimento e assassinato das raízes, como aliada. Nesse período surgiu a ideia de começar a gravar vídeos com minhas declamações, porque vi que tinham muitos blogs onde as pessoas publicaram as poesias escritas, mas a poesia popular nordestina tem muito mais força quando é declamada. Achava bonito o que eu escrevia, mas não sabia se a minha declamação ia ser boa, então peguei um telefone celular, gravei e publiquei. Esse primeiro vídeo teve 3 milhões de visualizações, aí percebi que o povo gosta de poesia, que quer ver isso, e daí não parei. 

Ser considerado o Embaixador do Nordeste é uma responsabilidade muito grande, né? Como você lida com esse título que te foi dado? 

É muita responsabilidade, sim, mas tem um poema meu que digo que quanto maior o peso que o cabra carrega nas costas, mais força ele cria nas pernas. Acredito que isso se encaixe perfeitamente com essa história de “embaixador do nordeste”, “o cara que representa o povo nordestino” e tal… Eu mesmo nunca disse isso e quando ouvi algumas pessoas falarem senti um certo medo de soar prepotente, como se fosse eu que tivesse querendo passar essa imagem. Aí fui no Jô Soares, e ele falou: ele está sendo chamado de embaixador do nordeste. Na hora pensei: lascou! Mas, olhe, acredito muito no sentimento legítimo das pessoas quando se sentem representadas por alguém, não só por um artista, mas por alguém. De ter um cabra do interior do Ceará que toda sexta-feira senta no sofá de um programa da maior emissora do país ao lado de grandes nomes da história da TV e, no sábado, tá tomando uma cachaça no Bar de Ciço lá no Alto Santo. Isso gera, claro, um sentimento de representatividade. Então, se a Dona Maria me para no meio da rua e diz “meu filho, você me representa”, então eu represento. Nunca tive essa pretensão, mas já que me deram esse título, tenho que honrar, respeitar, e minhas pernas estão mais fortes para caminhar com esse “peso”. 

Dá orgulho mais ainda saber que o embaixador do nordeste é cearense, de Alto Santo, e que é considerado não só por nós, mas como pelo país inteiro – que te conhece através das suas palestras Brasil afora. Como são essa representatividade e essa receptividade? Precisamos compreender que toda cultura surge local, mas tem potencial para ser global. Eu tinha muito medo de me tornar um estereótipo, de falar só do nordeste e para o nordestino. Mas não, escrevo e falo sobre gente de todo tipo, de todo lugar, não só do Brasil, mas do mundo. Quando escrevo um poema sobre saudade, penso que o alemão sente saudade, o japonês sente, e o cabra lá do Alto Santo também. Tenho um cuidado com isso, porque a representatividade da cultura do Nordeste está muito na minha arte através da literatura de cordel, da poesia popular, do meu instinto matuto de associar expressões do nosso povo, cheiros, sabores e cenários do nosso universo. Mas o que eu queria era justamente apresentar uma arte tipicamente nordestina de uma forma que o Brasil e o mundo entendessem. A televisão me deu essa oportunidade de tocar as pessoas e, hoje, faço eventos no Brasil todo e percebo que o carinho que recebo em uma cidade do interior da Paraíba é o mesmo de uma cidade no interior do Rio Grande do Sul. A diferença é o sentimento de representatividade. O gaúcho é apaixonado pela minha arte, pela minha palavra e pelo que ela provoca nele. Já o nordestino que me quer bem tem o sentimento de dizer “esse cabra é nosso”. 

FOTO: BRUNO MOURA

É como se fosse a gente sentado ali na Fátima Bernardes. 

É isso que quero que as pessoas sintam. Muitas vezes dizem “até que enfim um nordestino na Rede Globo para representar o nosso povo”. Eu digo: meu irmão, a Globo tá cheia de nordestino, a questão é que a grande maioria chega lá e vira carioca ou paulista. Arquitetou aquela chegada até lá já sabendo que ia ter que se moldar a um padrão para não perder a chance da vida dele. E comigo foi diferente. Nunca sonhei com negócio de televisão, então se eu fosse uma vez e me dissessem que não precisava mais ir, ficaria tranquilo. Eu não me forcei a criar uma estratégia para poder ficar na televisão. Foi o contrário. Se eu já tenho sotaque, quando cheguei lá eu “arroxei” mais no sotaque. Se eu já falava do Ceará, passei a falar do Alto Santo. Quando Fátima Bernardes fala sobre mim, ela não diz só que eu sou cearense, diz que sou do Alto Santo. E acho isso muito importante para que se entenda que existem as pequenas cidades, porque elas são quase invisíveis. Quando se fala, por exemplo, do Ceará, você só pensa em Fortaleza. 

Você não esconde que sua grande inspiração é o mestre Patativa do Assaré. De que forma ele te influenciou e como foi esse processo de se descobrir poeta? 

Quando tinha 13 anos meu sonho era ter um videogame, porque todos os meus amigos tinham e minha mãe não tinha dinheiro para comprar um, ou seja, nem sonhar eu sabia, mas acho que ninguém pode lhe roubar esse direito, porque ele é gratuito e livre. Aos 14, quando tive o primeiro contato com a poesia de Patativa do Assaré na escola, fui transformado, porque, naquele dia, meu sonho passou a ser falar para as pessoas através de poesia. Patativa é minha referência e o causador do Bráulio Bessa poeta. Nunca tinha tido contato com poesia, mas, quando vi a obra de Patativa, fiquei encantado pelo poder da palavra, de como ele usava a poesia com uma linguagem nossa, mas para falar de temas universais, como amor, saudade, carinho, sentimento, e também desigualdade social, reforma agrária, seca, fome, corrupção. Então, quando conheci Patativa, disse: quero ser isso aí! Meu sonho, naquele dia, era ser escritor e lançar um livro. Olha a evolução! Ontem, meu sonho era ter um videogame, porque eu tinha inveja dos meninos, e no outro dia o meu sonho era ser escritor. Então, transforma. E, naquele dia, decidi que também queria transformar a vida das pessoas. 

Você falou sobre as cidades pequenas serem, muitas vezes, invisíveis. Ser de Alto Santo, interior do Ceará, te fez ter medo de não conseguir realizar esse sonho? Como você fez para a sua voz ser ouvida? 

Eu sabia que ia ser complicado. Escrevo poesia desde os 14 anos e, quando comecei, não tinha nem rádio na minha cidade. Sempre desejei transformar a vida das pessoas através de poesia e nunca quis escrever por escrever, mas não tinha onde mostrar meus poemas, e minha voz não ia tão longe numa cidade pequena. Você é invisível mesmo. Quando pensei em escrever um livro para as crianças da minha cidade lerem, percebi que precisava buscar maneiras novas e contemporâneas para comunicar minhas poesias e, de alguma forma, resgatar o que para muita gente é velho, mas, nas verdade, é atemporal. Afinal, não existe poesia velha. Existe música velha, mas ninguém vai dizer que essa poesia é antiga. O poeta popular nordestino – o violeiro, o repentista – geralmente vai para a feira e declama os poemas e canta o mais alto possível para chamar a atenção das pessoas. Já eu olhei para a internet e disse “pense numa feira grande”, a maior do mundo, que não fecha hora nenhuma, tem todo tipo de gente, ninguém sabe onde começa nem termina… e é louco isso. Então pensei: aqui é onde posso começar a falar e ser ouvido. 

Os temas dos seus textos, que são os mais diversos possíveis, sempre têm, no fim das contas, um cunho positivo e olham para a existência humana de uma forma otimista. Mas, como você faz para criar? De onde vem essa inspiração cotidiana? 

Muita gente chama de dom, e acho isso muito abstrato. Apesar de acreditar que eu tenha esse tal de dom, não sei exatamente o que é, como funciona, mas acredito também em uma construção. O Bráulio Bessa poeta foi construído pelo que vivi, senti e pelas minhas experiências. No meu caso, vem também de um sentimento, uma necessidade de olhar para as pessoas. Afinal, como eu vou escrever um poema falando sobre o sentimento do pai pelo filho se não sou pai? Eu convivo com pessoas que são pais, então, busco absorver. O poeta é um ímã de sentimentos. A gente tá aqui hoje, numa conversa, e, muitas vezes, estou atento a uma coisa que passou despercebida para você. Isso é tão bonito, né? Recebo temas dos mais variados possíveis, polêmicos, complicados de falar, principalmente de forma poética, já que exige certa graciosidade, claro. Mas isso não anula podermos ser agressivos em um poema, mas não é minha proposta. A minha é a reflexão. Sempre que começo a escrever um poema, a primeira coisa que faço é a última estrofe, porque quero entender como eu vou terminar aquilo que quero dizer. Às vezes fico duas, três horas pensando no que quero falar para as pessoas, e as palavras vêm de forma mais fácil quando sei o que eu quero passar e o que quero fazer as pessoas sentirem. Aí vem tudo, flui de forma muito natural. 

FOTO: BRUNO MOURA

Principalmente no programa Encontro, e como você mesmo salientou, às vezes é necessário falar de um tema delicado, polêmico. Como você lida com esse desafio e como encontrar o equilíbrio entre a poesia e a responsabilidade de informação? 

É uma responsabilidade muito grande falar sobre temas tão complicados para milhões de pessoas. Você não está escrevendo um negócio e declamando na sala da sua casa. Você está declamando na sala de milhões de brasileiros – que estão passando por todo o tipo de problema e situação naquele momento. Como conversar sobre suicídio, por exemplo, durante a onda de suicídio entre adolescentes que estava acontecendo no Brasil? Não é simples. Porque quem está ali ouvindo, de repente, é um potencial suicida e, dependendo do que você diga, pode estar salvando uma vida ou, de alguma forma, estimulando ainda mais. É muito complicado. Cabe a mim ter delicadeza e sutileza. Quando tive que falar sobre esse tema, escolhi abordar as coisas simples da vida e eu fui escrevendo sobre como todas as pessoas que estão nos assistindo têm isso. Acredito que ouvir aquilo tenha servido para muita gente e busco reforçar muito essa mensagem: a gente vem pra cá, não traz nada, vai embora, não leva, então, vamos pelo menos deixar alguma coisa boa. Esse sentimento de servir todo ser humano tem que sentir na vida, porque talvez seja esse o sentido, sabe? Servir para alguma coisa boa. Eu acho que essa possibilidade de falar sobre tantos assuntos para tanta gente me deu isso, esse sentimento que eu estou servindo para alguma coisa. Que se eu fosse embora hoje, pelo menos, já servi. 

BOX: De cearense para cearense: 

Um cabra massa? Dedé sapateiro. 

 

Uma comida nordestina que tu não come nem a pau? Não encontrei ainda. Como de tudo e, de preferência, tudo junto e misturado. 

 

Uma bebida que tu acha só o mí…  Cachaça. 

 

Uma palavra que te descreve? Atrevimento. Sou atrevido e, se não fosse, a gente não tava conversando aqui, agora. 

 

Quando você diz arriégua com gosto de gás? Quando tô com muita saudade do Alto Santo, aí eu digo: Arriégua! Tô com saudade, vou pro Alto Santo. 

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